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30 de setembro de 2010

O jogo de jogar coisas fora‏

Texto extraído do site: http://bonsfluidos.abril.com.br/livre/edicoes/0138/jogar-coisas-fora.shtml

Uma poesia de Manuel Bandeira, que virou música pelas mãos de Dorival Caymmi, conta a história de um rei que atirava coisas ao mar e pedia para que as sereias fossem buscá-las. Primeiro, foi um anel, que voltou intacto para seus dedos. Depois, foram grãos de arroz, resgatados um a um pelas sereias. Finalmente, ele jogou sua filha, as sereias se fizeram de rogadas, e a princesa morreu nas ondas. Talvez, o medo que temos de jogar coisas fora seja responsabilidade de um rei como esse morando dentro de nossa cabeça: ele jogava, mas queria a coisa de volta. Por fim, seu medo de colocar algo para fora e depois sentir falta realmente se concretizou. Mas pense bem: será que você precisa mesmo de tudo o que acumula? Não seria bom se livrar de alguns anéis – desde que ficassem os dedos –, grãos de lembrança e algumas pessoas que não fazem mais parte da sua vida? Muitas vezes, só mantemos algo por não sabermos o que colocar no lugar. “Os objetos são vistos como uma extensão de nossa personalidade”, comenta o antropólogo Arthur Shaker, professor de meditação budista da Casa de Dharma, em São Paulo. “Abrir mão deles seria como abrir mão de si mesma.” Nesse sentido, cada objeto assume uma significação simbólica e, em algumas ocasiões, isso passa a ter mais força do que o objeto em si. Aquela fruteira velha é importante porque foi dela que seus filhos pegaram o alimento que os fez crescer. O mais velho gostava tanto das maçãs; o do meio, das bananas; e a caçula, das peras. Mas você continuará a ser a mãe amada mesmo se livrando da fruteira, pois pode nutrir seus filhos de sentimentos que independem de qualquer objeto. E isso vale para o parceiro, os amigos, a família.

POR QUE GUARDAMOS TANTO?

A sociedade de consumo tem um tantinho de culpa por essa mania de não nos livrarmos das coisas. Afinal, é ela quem estimula a posse. Mas a necessidade de guardar coisas é muito anterior ao desejo de um sapato novo de uma grife qualquer. “Em seus sermões, Buda já falava sobre o apego como uma forte característica humana”, lembra Arthur. Nossas avós guardaram mais porque viveram em uma época de guerra ou de migração, conheceram a carência. Muitas, hoje, ainda fazem estoque de comida esperando a próxima batalha eclodir. Os próprios animais demonstram certa estima pelo seu objeto preferido. Cachorros pequenos rosnam quando algum desconhecido chega perto de seu cobertorzinho predileto. E o leão ruge para qualquer um que se aproxime de sua caça.
É fácil enumerar diversos motivos para que alguém sinta dificuldade em se livrar de coisas e sentimentos. “Muitas vezes, guardamos algo de alguém que se foi como uma homenagem, até sermos capazes de realizar nossa despedida interna”, avalia Lana Harari, psicóloga de família de São Paulo. Há, ainda, o desejo de se precaver contra todas as eventualidades que o futuro possa trazer. Vai que ocorra uma enchente e você precise daquela galocha guardada há anos. “Nesse caso, é uma necessidade parecida com a que nos faz carregar uma mala pesada quando viajamos por temermos ficar desprotegidos”, compara Lana.
Pode ser também insegurança com relação ao futuro, medo de se livrar e não conseguir aquilo novamente, a preguiça de tomar uma decisão (jogo fora ou não o relógio que parou de funcionar?). Além disso, libertar-se do que está sobrando na nossa vida contradiz um valor muito cultuado hoje. “Vivemos numa época em que lutamos o tempo todo para que as coisas não fujam de nossas mãos”, lembra Arthur. Existe até um mercado que se alimenta desse hábito. É seguro para repor o carro se ele for roubado, cadeados nos portões, cofres.

COISAS DEMAIS ATRAPALHAM

Seja qual for a explicação para juntarmos coisas e sentimentos, a conclusão é que isso é ruim. Certas vezes, ao contrário de conferir identidade, objetos e pensamentos nos soterram em um monte de lixo e deixamos de ver quem realmente somos. No livro Jogue Fora 50 Coisas (ed. Ediouro), a especialista americana em motivação e organização Gail Blanke lembra uma história interessante. Assim que finalizou a estátua de Davi, alguém perguntou ao artista Michelangelo como ele soubera a forma de esculpir com tamanha perfeição essa figura humana. O escultor respondeu: “Davi sempre esteve ali no mármore. Simplesmente retirei tudo o que não era Davi”. Ao abandonar coisas que não têm mais valor ou utilidade, você estará seguindo os passos de Michelangelo. Ou seja, segundo a autora, sua essência realmente dará as caras, a partir do momento em que remover tudo o que você não é. Tanto quanto adquirir coisas, livrar-se delas também é uma questão de estilo. O que fica revela sua marca.
Desfazer-se do peso morto ainda abre espaço para a introspecção. Ambientes atulhados causam uma superexcitação. “A mente fica o tempo todo sendo arrastada pelo objeto e não descansa nunca”, descreve Arthur. Não é à toa que os mosteiros budistas, ambientes que convidam à meditação, são de decoração espartana. “Assim é possível olhar para dentro de si mesmo”, arremata.
Sem falar que viver tropeçando no que não serve acaba atravancando o fluxo de energia. “Toda casa tem uma energia que chamamos de chi”, explica Franco Guizzetti, consultor de feng shui, de São Paulo. “O chi não circula em ambientes atulhados, cheios de objetos, saturados. A energia fica estagnada”, completa ele. Essa regra vale também para coisas que ficam paradas durante muito tempo. Se não quer se livrar de algo, torne-o útil. É preciso ler os livros comprados, consertar o que está quebrado, tirar o aparelho de jantar de porcelana do armário. Não há razão para manter enfurnados objetos que você julga importantes. É você que faz um momento ser especial para merecê-los.
Ao mesmo tempo em que precisamos ter coisas, há sempre algo ou alguém nos impulsionando a substituir o que ficou obsoleto. O casaco de dois invernos precisa ser substituído por um com a cor da moda, mesmo ainda estando impecável; o celular não deve durar mais de um ano; carro tem de ser zero. Esse movimento gera uma série de sucatas, que se acumulam em algum lugar. Primeiro, nas casas e escritórios. Depois, quando decidimos nos desfazer delas, nos lixões. “É a filosofia de destronar o velho para impor o novo”, descreve Lana. Mas quem ditou que tudo precisa ser tão efêmero?
É ótimo livrar-se de peças sem serventia, mas não é tão bom assim gerar lixo. E não estamos aqui chamando de lixo apenas aquilo que está estragado, mas objetos que, ainda em bom estado, são encostados facilmente em nome da modernidade. “Talvez a solução não seja apenas jogá-los fora, mas sequer adquiri-los”, diz Arthur. Nem sempre o que é mais novo tem qualidade melhor. E, mesmo que tenha, o anterior talvez já garantisse qualidade suficiente.

POR ONDE COMEÇAR

O primeiro passo para liberar a área é, sem dúvida, estar disposta a isso. Não adianta separar coisas que, em poucos minutos, voltarão para o lugar de origem. Também não vale a pena sofrer demais. Se achar que ainda não é o momento de doar peças de alguém querido que faleceu, espere o momento certo para isso. Ou comece por outro canto, deixando o próprio guarda-roupa mais arejado. Quem sabe não se anima e vai encontrando energia para aquilo que atulha os sentimentos. “Jogar coisas fora pede coragem e manda uma mensagem para o mundo: quero me renovar”, diz Lana. Tomada a decisão, vale uma dica prática de Gail Blanke em seu livro Jogue Fora 50 Coisas. Ela sugere pegar três sacos grandes de lixo e etiquetá-los: lixo (propriamente dito), doação e venda. O terceiro talvez não se encaixe bem por aqui, tem mais a ver com o costume americano de fazer bazar na própria casa. Mas, se achar que alguma coisa pode ser vendida, separe os três sacos. Quando algo entrar em algum deles, não pode mais sair. O segredo é passear com eles pelos vários cômodos e fazer com que se encham com tudo o que é inútil. Esse processo não precisa ser feito em um dia só. De repente, sentada no sofá, você enxerga um vaso quebradinho ali no canto da sala que só não foi para o lixo ainda por pura preguiça. Basta destiná-lo a um dos três sacos. Mas também não funciona deixar o acaso agir sozinho. A iniciativa é que leva a um resultado consistente.
Depois do excesso material, vem o mental. Pode ser tudo junto também se preferir. Mas é imprescindível livrar-se dos dois. Enquanto as pilhas velhas, as roupas antigas e os parafusos inúteis se acumulam na casa de todo mundo, o lixo mental é mais específico e pessoal. Fica difícil traçar um plano. Pode ser um bom caminho começar com as lembranças incômodas, as mágoas não resolvidas. E, principalmente, as ideias preconcebidas que tem de si mesma. Jogue fora, sem pestanejar, o “não sou boa o suficiente”. Gail sugere, ainda, mais algumas sensações que podem ir para o saco: arrependimentos, a tendência de sempre pensar no pior, a convicção de que precisa fazer tudo sozinha.
“Precisamos nos desapegar do velho, dos automatismos, dos atalhos mentais que usamos por preguiça e que nos impedem de ter um novo olhar sobre tudo”, complementa Lana. “A decisão de pôr mãos à obra e reorganizar o espaço interno e externo tem um efeito transformador. Abre espaço para uma nova disposição, um novo jeito de se posicionar na vida”, diz. É um movimento de renovação não apenas do que está visível, mas, mais importante, do que está por dentro – do seu armário ou de você mesma.
Com a mão no lixo

O desafio de jogar 100 objetos/sentimentos que só atulham o caminho e atrapalham a vida.

Sou do tipo que gosta de jogar coisas fora. Sobrou um pouquinho de arroz cozido (mas só se for um pouquinho mesmo, detesto desperdício), ponho no lixo. Esmalte ficou duro, o mesmo destino. Eu mudei de apartamento há pouco mais de dois anos e fiz uma grande limpeza: foi para doação o antigo berço do meu filho; para o lixo, a velha sanduicheira que havia ganhado no casamento; vendido, o colchão antigo. Por isso, achei que não teria tanto assim para jogar fora, mas cheguei perto, bem perto, das 100 coisas. Talvez não seja tão boa assim em me livrar dos antigos sentimentos, mas eles me ajudaram a constituir um bom montante. Um dia, acordei matutando por onde iria começar, se faria tudo de uma vez ou em etapas.

Abri a geladeira para pegar o leite e...

1. Potes e potes, das mais variadas cores e tamanhos, com resto de estrogonofe, arroz (juro que não fui eu que deixei, foi meu marido), feijão, carne para fritar, carne já frita. Melhor nem comentar a aparência, alguns eram como experimentos científicos. Em poucos minutos, a pia encheu-se de potinhos vazios.
2. De quebra, um vidro de azeitonas aberto no Natal de 2008, se bem me lembro.
3. Fechei a porta da geladeira e dei de cara com ímas, centenas, milhares deles. Tinha até um de uma pizzaria perto da minha antiga casa, que certamente não entrega a 16 km de distância. Mais de dez foram para o lixo, sobraram os realmente úteis – telefone da farmácia, do ponto de táxi – e os de valor sentimental: meu filho bebê, Cataratas do Niágara. Nossa, a geladeira é branca!
4. E-mails são coisas? Talvez não, mas entopem a vida da gente. A caixa de entrada do computador do meu trabalho estava tão cheia que a máquina lançava de meia em meia hora uma mensagem desesperada, pedindo que eu deletasse algumas centenas. Atendi sua prece. Foram para a lixeira centenas deles de 2008 e alguns de 2009. 5. Em casa, dezenas de spams que eu simplesmente esquecera de deletar durante alguns meses.
6. Joguei meu cabelo fora. Há cerca de seis meses decidi deixá-los crescer. Os fios são lisos e eu queria dizer ao mundo: viu, não preciso de escova progressiva, sou mesmo assim. Mas aquelas pontas desfiadas estavam me incomodando terrivelmente. Fui ao cabeleireiro e pedi para tacar a tesoura sem dó. O resultado foi um chanel curtinho e moderninho.
7. Quilos. Minha grande dificuldade sempre foi me livrar deles, de vez. Mas, já que é para jogar, vamos lá: 0,8 kg em 15 dias (tá bom, é pouco, mas foram para o lixo de vez).
8. Sete revistas do ano passado.
9. Recortes de jornal.
10. Informação. É claro que “saber” é muito bom. Mas há informações que não servem para nada. Nunca esqueci a seguinte frase que aprendi na escola: “Matéria atrai matéria, na razão direta de suas forças e na razão inversa do quadrado da distância que as separa”. O que quer dizer isso, afinal?! Tudo bem, essa não consigo esquecer mesmo. Mas não lembro mais quantos ovos é preciso colocar no bolo. Minha cabeça é muito preciosa para guardar coisas que posso anotar ou achar na internet.
11. Sigo a filosofia de que “entra roupa, sai roupa”. Por isso, meu armário não vive entulhado. Mas deu para tirar dois pares de meias velhas e uma blusa de frio um tanto gasta.
12. Tenho mania de canecas. Adoro tomar café com leite nelas. Mas aquela com uma imagem desbotada do Frajola finalmente foi para o lixo.
13. Três canetas velhas, sem tampa, inúteis e mais secas do que cabelo depois da chapinha.
14. Não gosto muito de cozinhar. Mesmo assim, mantinha uma pasta com dezenas de receitas e um caderno que fiz quando era solteira. Nada disso vai fazer falta.
15. Adoro livros. Eis minha parte sensível, é muito difícil me livrar até mesmo daquele romance horrível que deu raiva de ler. Foi para o saco de lixo apenas o dicionário com a velha ortografia do português.
16. Em São Paulo, chove muito, mas isso não é desculpa para ter sete guarda-chuvas. Dois deles estavam com as varetas quebradas e permaneceram no armário à espera de autorregeneração. Como isso não acontece com objetos... lixo.
17. O que um calendário do ano passado estava fazendo na minha gaveta? Oh, atraso de vida!
18. O mesmo vale para o livro com uma lista médica do convênio do ano de 2005.
19. Já perceberam como pilhas velhas procriam dentro da gaveta? Você deixa duas e, algumas semanas depois, já são seis. Antes que a prole fugisse do controle, coloquei cinco em um saco e levei-as para a coleta no supermercado

Em casa, temos uma espécie de arca na sala de jantar. É lá que fica “a gaveta”. Sempre que eu ou meu marido não sabemos onde está algo, a primeira hipótese é esta: “a gaveta”. Foi terreno fértil.

20. Chaves que há muito não abrem uma porta sequer.
21. Linha de pescar (?!). Nunca pesquei.
22. Registro de entrada no pronto-socorro de quando meu marido teve pedras nos rins.
23. Duas caixas de óculos vazias.
24. Tubos de filme fotográfico (lembra deles?) vazios.
25. Crachá de um emprego do qual saí há mais de dez anos.
26. Preguinhos.
27.
Cartão velho do seguro da casa.
28. Cartão de acesso ao quarto de um hotel em que nos hospedamos há alguns anos. Tivemos de pagar por não tê-lo devolvido na saída.
29. Dois potes de comida de peixe. Nosso peixe morreu há mais de um ano.
30. Tíquetes de cinema.
31. Vale-promoção vencido de um restaurante chinês.
32. Uma roupinha de Barbie (?!).
33. Dois gizes de cera quebrados.
34. Extratos e mais extratos de banco.

De volta aos vários aposentos da casa.

35. Na varanda, uma violeta e uma arruda secas.
36. Vasinhos de plástico vazios (outra coisa que procria).
37. O xampu sempre acaba antes do condicionador e sobram vários frascos pela metade.
38. E, já que estava no banheiro, um creme de mão que havia vencido no começo do ano.
39. Da tradicional caixinha de remédios, tomaram seu rumo um anti-histamínico e duas cartelas soltas com pílulas que nem sei mais para que servem.
40. Dois protetores solares praticamente vazios.
41. Amostras de xampu, um monte delas. Algumas vieram em revistas, outras ganhei no shopping ou no supermercado. Para cabelo seco, anti-frizz (meu fios são lisos, como já disse), antiquedas. Marcas diferentes, todas arrumadinhas. Se usasse uma por dia, acho que enlouqueceria meus cabelos.
42. Três lixas de unha que não lixavam mais nada.
43. Sabonetinhos de hotel com cheiro duvidoso.
44. Sachês perfumados (também com cheiro duvidoso).
45. O estojo de maquiagem não rendeu muito. Ainda assim, foram embora dois batons secos como uma vela.
46. As bijuterias renderam um pouco mais: dois brincos sem par e uma correntinha sem valor, quebrada.
47. E um daqueles broches tipo pin que ganhei no aniversário de uma empresa que trabalhei há tempos e que não me trazia boas lembranças.
48. Por falar em más lembranças, sei que não é fácil simplesmente se desfazer delas. Mas dá, pelo menos, para não ficar remoendo. Para a lixeira provisória da minha cabeça, mandei: minha primeira chefe, uma verdadeira megera; o dia em que não fui aprovada no vestibular da USP; a besteira que o cara do telemarketing me falou dois dias atrás e me fez subir pelas paredes.
49. Ainda nessa linha do lixo mental, resolvi tentar descartar uma mania, a de ficar 5 minutinhos a mais na cama, pois acabam virando 20 e atrapalham todo o meu dia.

Tenho um filho de 5 anos que ainda está exercitando sua habilidade de se libertar de coisas. Espero que ele puxe à mãe nesse quesito. Não gosto de mexer nos pertences dos outros (viram que até agora resisti bravamente e não peguei nada do meu marido), mas é didático ajudar uma criança a se livrar de suas quinquilharias:

50. Uma imitação de mochila de cartolina feita no último curso de férias.
51. Recortes, recortes e mais recortes.
52. Dezenas de brinquedinhos ganhados como brindes em lanchonetes, alguns aos pedaços.
53. Outra dezena de bugigangas da última festa junina.
54. Um potinho cheio de folhas secas.
55. Das três bolas, uma foi para a casa do avô. Ok, não é jogar fora, mas também é tirar do caminho. Por isso, conta.
56. Como no guarda-roupa do meu filho vale a filosofia do “entrou um, saiu outro”, não tinha sobra. Ainda assim, foram para doação duas calças curtas e três camisetas.
57. Com muito sacrifício, consegui convencê-lo a doar um boneco de guerra com o qual ele nunca brincou.
58. Duas miniaturas de carrinhos repetidas.
59. Um “brinquedo de bebê”, como ele mesmo chama.
60. Para o lixo mesmo foram: uma caixa com sobra do material de escola do ano passado com uma cola vazia, três lápis no toco e uma borracha velha. 61. Agendas antigas da escola: o que comeu, se ganhou um galo, convite de aniversário dos amigos...
62. A bolsa na qual eu guardava os cacarecos dele – mamadeira, fraldas, lencinhos etc – quando era bebê e íamos sair. Foi para uma amiga grávida.
63. Chupetas antigas.
64. Mais uma vez, na parte alta do armário, frascos de remédios velhos. Todos sem utilidade, a fase das viroses quinzenais já passou e a data de validade também.
65. Será que a caixa de lencinhos umedecidos – agora já secos – tem algum significado especial para estar lá ainda? Como não consegui lembrar, foi para o lixo.
66. Outras pilhas velhas, dos brinquedos.
67. Babadores, dezenas deles.

Em um sábado à noite, decidimos fazer um fondue. Como isso não é rotina, o aparelho fica guardado em uma estante numa sala que não abrimos com muita frequência. Foi de lá que saíram mais estas coisas:

68. Uma garrafa de cachaça com aspecto suspeitíssimo. Já que não ganhou o direito de ficar guardada em nosso barzinho, boa coisa não podia ser.
69. Um enfeitinho de velas e um vaso de plástico. Nem lembro como isso veio parar aqui.
70. Fitas cassete. Muito cuidado nessa hora!!! São do meu marido e ele nutre carinho especial pelas corridas do Ayrton Senna. Mas não se importou de eu ter me livrado de 9 e Meia Semanas de Amor, aquele filme de quando o Mickey Rourke ainda era bonito.
71. Joguinho americano feio, para duas pessoas. Somos três em casa agora.
72. Resto de papel para encapar caderno.
73. Duas caixas de celular vazias.
74. Fios que estavam “abandonados” dentro de um pote, enrolados feito uma cobra.
75. Algumas fotos horríveis. Está aí algo que não consigo jogar fora com facilidade, mas um monte de gente com cabeça cortada não fará falta.
76. E, por falar em fotos, há uma música do Paralamas do Sucesso que fala em “cartas e fotografias, gente que foi embora”. Não tenho cartas guardadas, já falei das fotos, mas o “gente que foi embora” pega. Não digo os que morreram, pois quero guardá-los em um cantinho carinhoso, mas aqueles que passaram pela vida da gente, fizeram sofrer e, de vez em quando, aparecem na memória no melhor estilo “olha eu aqui de novo”. Não é fácil se livrar deles, mas vão para o lixo provisório do cérebro.

Meu prédio tem algo que é, ao mesmo tempo, maravilhoso e traiçoeiro: um depósito. Admiro os vizinhos que transformaram o espaço em uma despensa: compram material de limpeza em grande volume e guardam lá. O meu, em dois anos virou um depósito de coisas sem uso. Ainda está lotado, mas já dá para andar nele:

77. Duas mesinhas de canto horrorosas foram doadas.
78. Três bolsas velhas e mofadas.
79. Desenhos do meu filho. Eu o amo o suficiente para poder jogar os rabiscos horrorosos no lixo e ficar apenas com os mais significativos. 80. Mais alguns brinquedos de bebê, para doação.
81. Três bolas – daquelas gigantes e megacoloridas, que dão de brinde – murchas.
82. Restos de madeira e piso.
83. Uma lata de tinta absolutamente seca.
84. Alguns enfeites de Natal. A maioria permaneceu.
85. Forminhas de gelo. Que utilidade elas podem ter em um espaço tão abafado?
86. Um pedaço gigante de papel bolha parcialmente estourado e sem nenhuma utilidade.
87. Pincéis duros.

No trabalho...

88. Minha mania de ímas ataca novamente: quatro são de lanchonetes que nem devem mais existir.
89. Uma piranha de cabelo toda quebrada, colada com superbonder.
90. Muitos saquinhos plásticos.
91. Um pedaço de tomada.
92. Uma caneca com a alça quebrada.
93. Cartõezinhos de fornecedores com os quais nunca mais pretendo falar.
94. Caixas vazias de clipes, elástico, grafite e borracha.
95. A mania de perseguição. Ok, não a joguei no lixo por completo. Mas vale a regra dos Alcoólicos Anônimos: “apenas por hoje” não vou achar que aquela reunião na sala da minha chefe é para falar de alguma mancada irreversível que eu dei.

O fim do desafio coincidiu exatamente com uma semana de férias. Como já tinha feito a faxina física, tentei dar ainda uma vasculhada na mental. Sabe como é, sempre sobram uns restos pelos cantos. Vamos lá:

96. A preguiça de me cuidar. Sempre arrumo um tempinho para levar meu filho ao médico, o ferro elétrico para o conserto, a calça para fazer barra. E eu? Fui ao dermatologista, e fiz os exames que o ginecologista havia pedido há muito tempo.
97. Finalmente, a culpa. Essa me acompanha desde criança, é fácil me convencer de que a culpa é minha, de qualquer coisa. Eu deveria abrir um serviço para admitir culpas alheias. Assim, só durante a semana de férias, decidi não me sentir culpada por não estar trabalhando, por deixar o filho um pouco na casa de um amiguinho e fazer absolutamente nada. A sensação ficou no lixo provisório, eu sei. Não é fácil descartar algo que me acompanha há tanto tempo. Mas só por esta semana...

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